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Os males da cozinha contemporânea: uma mezinha contra o ego e a pressão | Tuga Gourmet

 

Fonte: CNN


A Mezinha

Há algum tempo atrás, num evento culinário cosmopolita em que participei, constatei que nem todas as espécies de dinossauros desapareceram do planeta Terra. Enquanto os trabalhos no fogão intensificavam, um espécime presente – tiranossauro-chef - agredia consistentemente o seu ajudante com murros e joelhadas por este não cumprir o que ele próprio não foi capaz de delegar, tampouco executar. Terminado o serviço, para gáudio do jornalista que o perseguia, lá cedeu à entrevista com os habituais lugares-comuns do respeito pelo produto, sazonalidade e sustentabilidade. Irónico. Estes são predadores perigosos, cujo entretenimento preferido passa por transformar as cozinhas em autênticas selvas, onde o medo galga fusiforme pela esperança das jovens crias que, fechadas as portas da decência, procuram relativizar, aguentando esperançosas pelo seu lugar no Olimpo da alta cozinha nacional. Até quando?

Sabemos que um vírus como a gripe é transmissível entre humanos, a estupidez também e, por isso, fruto destas experiências, fico irremediavelmente preocupado. Recomendo não só os cuidados óbvios no que à higiene social dizem respeito, como também à ingestão de uma mezinha que pode fazer no conforto do seu lar, com ingredientes gratuitos (ou quase). Estou certo quanto à sua eficácia e não tenho a menor dúvida que ajudará a estancar a extinção em massa dos já tão poucos cozinheiros existentes neste país.

 


Receita

Ingredientes:

Educação 400 gr

Inteligência emocional 480 gr

Organização 200 gr

Conhecimento 520 gr

Sal 2 gr

Caldo de consciência 3 lt

Técnica q.b.

 

Preparação:

Lavar e descascar a pressão, cozer em caldo de consciência com o sal. Bater a inteligência emocional em relevo. Aquecer a organização. Misturar tudo com cuidado e adicionar a técnica pouco a pouco, em fio. O processo deverá ser executado com luvas para que não haja qualquer contaminação cruzada com o ego, que como sabemos, poderá causar infeções, alucinações ou até mesmo a morte (sua e daqueles que o/a rodeiam). Sempre que tomar deve polvilhar com um pouco disciplina. Se os sintomas persistirem consulte o seu médico.


Texto original



Este artigo foi originalmente publicado na revista Manja nº 289, p.64, 2025.

Tiago Lopes

 

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