A aldeia de Penhas Juntas não é apenas um ponto no mapa, nem um conjunto de encostas cobertas de mato cerrado. É um território do interior de Portugal e, como tal, não é alheio a fenómenos como a desertificação, porém mantém vivo o espírito comunitário e de entreajuda entre a população. É nesta aldeia que se realiza todos os anos a montaria ao javali. Aqui acorrem dezenas de caçadores do norte do reino.
6:00h: o sino da capela dá as primeiras seis badaladas, o sol ainda dorme, mas a neve e o frio mordem os dedos e o nariz às primeiras almas que irrompem, com valentia, da cama.
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| As Mãos. |
Desenganem-se os doutores e maîtres d'hôtel por esse mundo fora, pois aqui serve-se pequeno-almoço, almoço e lanche para mais de 130 pessoas em menos de duas horas. Talvez devêssemos olhar para isto como um case study.
| A beleza da idade. Sra. Aida - Mãe do Fernando. |
Daqui podemos sair de todas as formas: cansados, com sono, a cambalear, mas nunca com fome. Pão aberto à navalhada, carne a pingar gordura das brasas, chouriço, presunto (estava tão bem cortado pelo Presidente de Junta, Carlos Baretas, que só eu repeti dois bifes), caldo verde e alheiras, claro está, à navalhada, rojões e sopas de alho. De Vila Real o Sr. Alberto trouxe o Vinho do Porto, um vinho fino, como dizem, com décadas de idade (não consegui apurar ao certo, pois estava dentro de uma garrafa que dizia “LUSO”; terá sido o tal milagre igual ao das Bodas de Caná? Nem o padre está connosco para testemunhar). Com milagre ou sem milagre, nada sobrou.
| Fernando. |
| Sopa de alho. Desconhecia a existência de tal iguaria nesta geografia. Na sua composição tem pão, caldo de galinha, alho e azeite. |
Mais à frente estava Paulo. Grelhava as carnes com o olhar compenetrado e encarando a missão como se de uma das maiores da sua vida se tratasse. Disse posteriormente à imprensa local.
O fumo espesso das brasas intrometia-se na rigorosa análise do documento mais importante do dia: o mapa da mancha - local da caçada - onde, semanas antes, é distribuída alimentação aos javalis para que seja criada uma rotina.
| Carnes em vinho. |
| Aqui sem fumo. |
As matilhas chegaram e os cães estão irrequietos. Os matilheiros colocam-lhes coleiras com GPS para que não se percam no mato enquanto perseguem os javalis.
Estômagos aviados. Navalha no bolso. Conversa em dia. Carabinas limpas. Discurso de Carlos Baretas: agradece aos presentes e os presentes agradecem ao presidente. É definida a frequência de rádio que vamos usar. Pede-se cuidado e atenção a todos os participantes. Palmas.
| Grupo de caçadores. |
| O pequeno-almoço ou almoço ou lanche. Não me recordo muito bem. |
Foram mais de quinze jipes, totalmente cheios de pessoas e de expectativas, pelo terreno irregular: silvas cerradas, pedras soltas, árvores baixas e cursos de água inesperados. Pelo caminho há, em pontos definidos, algumas fitas com a letra e um número. É essa fita que define a posição de cada caçador. Luís, que além de apicultor também se dedica à caça, apronta os últimos detalhes na mira da arma. Avalia o terreno e constrói um abrigo para a chuva.
| A vista do jipe. |
Dali a 10 minutos ouvimos um foguete (o que dá ordem de início à montaria). Em cada extremidade da “mancha” estão sete carrinhas que libertam sete matilhas, cada uma com várias dezenas de cães. Sopra-se a corneta e os cães entram, desenfreados pelo mato adentro. Aqui e ali ouve-se ladrar e, pouco tempo depois, ouvem-se tiros. Mantemos comunicação via rádio e todos são avisados do que vai acontecendo. A montaria é um diálogo tenso entre homem, cão e paisagem. É aqui que se percebe que a caça não é um espetáculo. É uma prática reguladora e moderadora entre o binómio humano-natureza.
| Matilheiros depois do apito final. Perdão, foguete. |
Quatro horas depois, outro foguete. Terminada a montaria, todos regressam ao ponto de partida: casa do padre, já no lusco-fusco de um fim de tarde transmontano. Nesta altura junta-se ao banquete a restante comunidade de Penhas Juntas. O leilão dos animais que foram mortos reverte para o bem da comunidade. Realmente. Nunca ouviram falar de um tal de George Orwell, seguramente.
| ou será isto Trás-os-Montes? |
O jantar, ou almoço ou lanche, não sei bem, foi servido às 18:00h. Como alguns dos caçadores teriam várias centenas de quilómetros para percorrer, optou-se por um prato leve: feijoada de javali. Não foi dos que foram caçados. Foi outro.
| Sra. Judite na preparação da sopa de alho. |
| O presidente da Junta de Freguesia Carlos Baretas |
Comprei um dos exemplares mais jovens de todos os javalis que foram caçados. Do ato irrefletido e inconsequente que foi levantar a mão e dizer: — Eu fico com este por X! Sobraram dois minutos de reflexão, com o Requiem em Ré menor de Mozart de fundo, sentado nas escadas e a pensar interiormente: — e agora? o que foste fazer à tua vida? Concluí: - Agora puxa da navalha e faz-te à vida! E assim foi.
A luz fraca de um candeeiro improvisado. O cheiro cru da terra e do sangue. Valeu-me o Fernando — o Sr. Faz-tudo da aldeia — para o içar.
Os caçadores dispersam: uns para casa, outros para o café do “Pomba”, outros à lareira fazem contas. Cada qual na sua vida, no seu destino, como assim é a tradição ou a necessidade. Até para o ano!
Presidente Carlos pela organização e Luís pela boleia no jipe: Obrigado!