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Crise – Mito – Símbolo | Tuga Gourmet

 

Fonte: observador.pt


    Jornalistas escrevem, cozinheiros desabafam, empresários alertam. O tema das manchetes de janeiro a março. Depois vem o sol. À parte das emotivas declarações que vão surgindo e da economia paralela, como o pagamento de salários em numerário, por exemplo, urge atentar aos factos. Que há uma crise, todos nós já sabemos; o que falta descobrir é que tipo de crise.

    Por um lado, temos um pequeno grupo de restaurantes que, presentes nos guias mais prestigiados, nacionais e internacionais, são frequentemente apresentados como o espelho da vitalidade gastronómica do país. Por outro, a vida real. Das pessoas comuns. Dos pequenos espaços. Segundo dados da DGE, em 2024 uma grande parte das empresas com o CAE 561 (Restaurantes, incluindo restauração móvel) empregava entre 1 e 9 trabalhadores, ou seja, trata-se de um sector dominado por microempresas. Este modelo, compreensivelmente, é aquele que se revela mais frágil pela ausência de escala perante choques como inflação, aumento dos custos da energia, subida dos salários ou alterações fiscais.

    De acordo com o Banco de Portugal, a rendibilidade média destas empresas em 2021 situava-se nos 0,7%; em 2024 subiu para 3,3%. Apesar da melhoria, trata-se de um valor baixo, insuficiente para garantir investimento, modernização ou sustentabilidade a médio prazo. Em 2025, registaram-se 1.048 encerramentos. Ainda assim, o dado mais curioso — e revelador — é outro: neste mesmo período foram criadas 2.900 novas empresas. Este ciclo de aberturas e encerramentos constantes sugerem não vitalidade, mas uma reconfiguração do mercado, consequência das expectativas irrealistas e de uma cultura empresarial pouco profissionalizada. As empresas do sector que operavam com até 9 funcionários, em 2023 representavam 48,6% da faturação do sector a nível nacional; em 2024 passaram a representar 39,9%. Em sentido inverso, as empresas com 10 a 19 trabalhadores aumentaram de 17,8% para 20,3%, e as que empregam entre 50 e 249 trabalhadores passaram de 9,4% para 12,1%.

Este facto evidencia o crescimento de estruturas com mais escala, mais profissionalizadas e, por isso, teoricamente mais sólidas. Afinal há crise ou não? Nim. Há mudança – que, aliás, não será uma constante? Então e a gastronomia portuguesa está em risco? Não. Crise empresarial não equivale a uma crise cultural. Os valores que constroem uma idealização coletiva do que pode ou não ser rotulado de cozinha tradicional portuguesa não são salvaguardados única e exclusivamente pelos espaços de restauração. Há uma narrativa conspiratória e dramática, sem qualquer fundamento científico? Sim. Há uma crise de modelo empresarial que se tem vindo a acentuar? Também.  Na década de 70, Sttau Monteiro já se manifestava preocupado com a proliferação do snack-bar e com a importação das novas culinárias. Passados 56 anos…

Concluindo: Não há uma crise da gastronomia portuguesa enquanto identidade cultural; há uma transformação do modelo empresarial dominante na restauração de pequena escala. A sua extinção é, portanto, o apanágio do achismo e o trono dos fixistas.


Artigo originalmente publicado na revista Manja, nr. 291, 2026, pp. 64,65











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