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À mesa com os cristãos-novos: Alimentação, resistência e identidade (1497-1774) |Tuga Gourmet

   

    Neste texto procuro percorrer os caminhos sempre convergentes da religiosidade e da alimentação. Debruço-me sobre a comunidade judaica que viveu, entre os séculos XV a XVIII, no Reino de Portugal. 


Uma Hagadá com a familia reunida à volta da mesa de Pessah. Arthur Szyk (1894-1951)



   Como percebemos, este percurso foi extremamente penoso, fruto das perseguições constantes, dos condicionamentos legislativos assim como pela conversão forçada ao cristianismo. Restaram apenas duas escolhas, a da aceitação à nova realidade e consequente relativização da moralidade e da ética ou, por outro lado, à prática oculta do judaísmo, sendo esta a opção mais arriscada, que conforme perceberemos, conduziu muitos judeus à condenação e à morte. 

    Apesar da vasta disponibilidade documental nesta área não abundam estudos específicos sobre a área da alimentação destas comunidades. Temos o belíssimo artigo da Isabel Drumond Braga, na revista portuguesa de história, nº 361, mas que aborda o tema da alimentação dos cristãos-novos de forma tangencial. Temos outros artigos como o “Grande refeição: metáforas alimentares na descrição do transcendente religioso na cultura ocidental”, de Paula Barata Dias que explora a metáfora alimentar na religião, embora de carácter mais teológico, digamos, revelou-se uma excelente ferramenta para explorar este lado menos tangível, menos prático deste texto. 

    Na Torre do Tombo encontrei inúmera documentação igualmente valiosa, que talvez necessite de mais tempo e profundidade de análise. O livro de Baião, de 1924” Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa” também continua a ser um apoio importante para percebermos as formas de acusação e condenação dos judeus. 

    A Bíblia, a fonte mais antiga, em particular no Antigo Testamento, apresenta no seu conjunto todas as regras recomendáveis à boa e saudável alimentação e que, por isso, é da maior relevância abordar.

    Primeiramente tratamos a comensalidade, por se considerar a base lógica de toda a ritualística alimentar, passando pela inquisição e seu modus operandi, assim como a forma que os prisioneiros eram alimentados, muitas vezes de forma diferenciada de acordo com o seu estatuto social, como veremos. Por fim, mas não menos importante, escreve-se sobre o papel das mulheres, esse menos documentado, por razões lógicas de secretismo, no que à preservação da cultura judaica que se transmitiu ao longo de vários séculos, por várias gerações.


DA COMENSALIDADE À CONVIVIALIDADE

    António Fernandes defende que as civilizações e as culturas são sempre aglomerados diversos de cultura,   ou, se quisermos, de símbolos, através de práticas sociais expressas na forma de rituais e crenças. Serão igualmente formas de interpretação da realidade à luz da construção teórica ao longo dos milhares de anos em que a vida social se construiu. Assim, as práticas alimentares dos povos formam o que podemos caracterizar de expressões ritualísticas.  Para que isto acontecesse foi necessário um afastamento do mundo observável e uma aproximação ao transcendental, e é precisamente nesta perspetiva que entra a religião e a sua busca pela associação do empírico e ao sentido de pertença a uma determinada comunidade. 

    O autor defende que “a mesa é também usada como meio para se fazer a permuta da estima social. A honra é objeto de uma permanente transação no interior das sociedades. Adquire-se estima, convivendo com quem a possui” . Podemos afirmar que a mesa se foi tornando, através dos tempos, o meio para a unificação dos povos, onde em determinadas comunidades, como a que analisamos, esse efeito é claro. Os significados da comensalidade variam de acordo com as épocas, geografias e religiões, mas conforme nos diz António Fernandes, esta transpõe sempre para a mesa a simbologia religiosa através da interpretação que estas comunidades imprimem nas escrituras que consideram sagradas.   

    A mesa e a convivialidade será, por fim, a representação espelho, desde há séculos como representação civilizacional pura de demonstração de poder ou de opressão, e neste caso, de uma justificação legítima para perseguir uma determinada comunidade onde a representação do sagrado assume formas diferentes de exteriorização religiosa e cultural.


A METÁFORA E A ALIMENTAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO

    O uso de figuras alimentares no antigo testamento está subjacente à interpretação das mensagens divinas que chegam até ao nosso mundo, na forma escrita. Segundo Paula Barata Dias, o termo “religião” tem origem no tempo “Religare” do latim que quer dizer “ligar de novo” é uma forma de nos localizarmos e interpretarmos o universo, quer no espaço metafísico, quer no espaço concreto, como o é o da alimentação. A religião não só, mas também, tem uma função de manutenção da ordem social, funciona como uma monitorização constante da moralidade e ética de um conjunto de indivíduos, desde que estes a entendem naturalmente como parte da sua estrutura civilizacional.

“E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer e agradável aos olhos e arvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto e comeu; e deu também ao seu marido e ele comeu com ela” (Gen. 3,6)

O proibido aqui com o fruto como símbolo, a primeira transgressão alimentar.

“Eis que estarei diante de ti ali sobre a rocha, em Horebe; e ferirás a rocha e dela sairá água e o povo beberá” (Ex. 17,6)

    Compreensivelmente de uma rocha não nasce água, tratar-se-á, portanto, da descrição de um milagre, concretizando o que poderá ser uma dependência do comum mortal em relação a Deus e por isso, na sua companhia, estará garantido o sustento físico. 

Porque a vida da carne está no sangue e eu vo-lo tenho dado sobre o altar para fazer expiação pelas vossas almas” (Lev. 2,1)

Neste excerto, percebemos claramente a exemplificação de um condicionamento alimentar, mais do que uma metáfora é uma regra, que deve ordenar a vivência terrena.

“(…) quem nos dará carne para comer? Pois bem vos sucedia no Egipto; Pelo que o senhor vos dará carne e comereis. Não comereis um dia, nem dois dias (…) mas um mês inteiro, até vos sair pelos narizes e a abomineis, porquanto rejeitastes o Senhor (…)” (Núm. 11,18)

A carne e a sua disponibilidade à mesa sempre foi muito cobiçada. Neste período da história não foi exceção. Aqui temos claramente um exagero, dizendo que a carne sai pelos narizes, tratando-se pois de uma hipérbole e ao mesmo tempo um alerta para que o consumo deste alimento seja moderado. O excesso é, portanto, incompreendido do ponto de vista moral e ético, segundo os ensinamentos do Senhor.

“(…) Ouve, pois, ó Israel e atenta em os cumprires, para que bem te suceda, e muito te multipliques, como te disse o Senhor, Deus de teus pais, na terra que mana leite e mel.” (Deut.6,3)

O leite e o mel representam prosperidade e fertilidade. Um sinal de bênção divina. Como nos refere Paula Barata, um lugar em que, para se garantir a sobrevivência o esforço é mínimo porque a terra dá o leite e o mel, sendo que o leite é o primeiro alimento do homem, e o mel o símbolo da terra mãe, àquela que sempre voltamos.   


CASUÍSTICA ALIMENTAR E ADAPTAÇÃO AO TERRITÓRIO PORTUGUÊS

    As leis alimentares judaicas, conhecidas como kashrut, são parte essencial desta religião. As suas restrições alimentares não decorriam apenas pela lógica medicinal ou nutritiva, mas pelo respeito e obediência à Torah.  A religiosidade, conforme refere Paula Barata Dias, assim como os sistemas religiosos, são parte integrante da construção do indivíduo e a sua integração na comunidade em que se vê representado como semelhante. 

    Não é menos raro encontrarmos a associação de um medo primitivo na consciência humana, como o da morte. Encontramos no livro do Genesis, o mito fundador da religião cristã e judaica em que Adão e Eva têm ao seu dispôr o mundo de delícias, com a exceção dos frutos das árvores do jardim que, se as comessem, pagariam um preço elevado, o da morte. 

    Teremos a introdução do livre-arbítio e da consciência moral da humanidade na representação da árvore do bem e do mal . O foco parece-nos estar não no pecado original, mas na responsabilização humana, no arrependimento e na capacidade de escolher entre o bem e o mal. A narrativa reforça a ideia de que os humanos são parceiros de Deus na criação e devem seguir rigorosamente os seus mandamentos. 

    A fundação do Judaísmo - ligada estreitamente ao êxodo do Egipto - estabelece a defesa do povo judeu e a Torah como pilares centrais. O Judaísmo enfatiza a lei e as obras, o cristianismo a redenção através de Cristo. 

    Encontramos também no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada, mais especificamente no terceiro livro do Pentateuco, no Levítico, a existência de inúmeras referências aos alimentos que se devem ou não comer. 

     Resulta claro, que só se devem alimentar de animais quadrúpedes , que ruminem e tenham a unha do pé dividida, tal como os bois.  Fruto da perseguição aquando do estabelecimento da Inquisição, há um progressivo abandono de certas práticas em público, principalmente por uma questão de sobrevivência. Quanto à carne de porco, em Portugal, nem sempre foi abolida de forma absoluta da alimentação judaica, fosse pela escassez dos alimentos, fosse por falta de opção . 


ACUSAÇÕES DE JUDAÍSMO COM BASE NOS ALIMENTOS


Beatriz Henriques (1583)

Vemos no processo de Beatriz Henriques, com 31 anos, natural de Braga, que a 1583 foi acusada, justamente ou não, do facto de não comer carne de porco, resultando da acusação: a prática  do judaísmo. 

“(…) disse então, confidencialmente, que não comia carne de porco. Disse ainda que era bom guardar os costumes antigos por amor de Deus e em respeito à Lei Velha.”  (Processo de Beatriz Henriques, 1583)

Apesar do consumo de porco, como sabemos, não estar totalmente erradicado entre a comunidade de cristãos- novos em Portugal, é interessante notar que o consumo de sangue e derivados, como por exemplo a morcela (iguaria há muito presente neste nosso território), é totalmente renegado, de acordo com o cumprimento estrito da lei judaica.  A proibição do uso do sangue na alimentação é muito clara.  

Fernão Gil e Isabel Dias (1543)

Num outro caso, verificamos a acusação contra Fernão Gil de 90 anos de idade, natural de Braga e contra sua mulher, Isabel Dias, do Porto, em que os dois foram acusados, não só, mas também pelos hábitos alimentares.

“Afirma-se que os acusados praticavam os seguintes atos:Práticas durante a Páscoa:(…) Não compareciam às festividades cristãs, não se confessavam nem tomavam a Eucaristia. Essas práticas ocorreram durante os últimos seis anos. (…)Não comiam coelho, lebre, carne de porco ou peixe sem escamas, observando as proibições alimentares prescritas pela Lei de Moisés na Lei Antiga.“  (Processo de Fernão Gil e Isabel Dias, 1543)

Foram condenados à prisão por cinco anos e a penitências espirituais.

O consumo das carnes - as que fossem permitidas - estava, condicionado ao sistema sacrificial, conforme nos indica Paula Barata Dias, que entende ser uma clara herança greco-romana.  Oferecendo-se sempre em primeiro lugar um animal macho ou partes deste, para os deuses, para queimar, desde que fossem saudáveis, sem quaisquer defeito e, de preferência de grande porte.   

    Depois do animal morto, tinha que ser completamente escorrido de sangue e as carnes tinham sempre de ser salgadas.   As gorduras, de acordo com a lei judaica também não são permitidas, quem o fizesse seria “exterminado” do seu povo.  São práticas antigas que, além de reforçarem a ligação espiritual entre as pessoas e os deuses, constituem uma matriz identitária destes grupos. 


O PÃO SANTO

Telha para cozer o pão ázimo. Museu Judaico de Belmonte. Fotografia: Tiago Lopes

Pão ázimo. Museu Judaico de Belmonte. Fotografia: Tiago Lopes



    O pão surge frequentemente ao longo do Antigo Testamento como símbolo de sustento. No Êxodo, quando o Senhor envia os seus filhos para o deserto Sin, entre o Elim e o Sinai, disse-lhes que faria chover do céu, pão para todos, e que o povo recolherá a cada dia uma porção e assim se verá quem está ou não nas suas leis.   Além do sustento, o pão surge também como alimento de partilha e símbolo de hospitalidade, como percebemos no texto Gênesis, onde Abraão oferece pão aos três visitantes, pedindo à sua mulher, Sara, para o amassar e cozer no borralho  - destaco desta passagem a arte da hospitalidade como ato de ternura e compaixão pelo próximo. A celebração pascoal, que exploramos mais à frente, conforme lemos no Antigo Testamento, tinha uma grande expressão entre os cristãos-novos. Era realizada em março/abril. O pão ázimo é pão sem levedura “que os judeus consumem durante os sete dias da Páscoa”.  (Leão,2021). Estes pães, sem qualquer adição de qualquer de fermento, representam para os judeus a fuga apressada do Egipto.  

    O pão, ou a sua forma de confeção poderia ser também um pretexto de acusação de um cristão-novo que, por esse facto, continuaria a prática do judaísmo, como vemos no processo da Inquisição de Lisboa, contra Brites Henriques a seguinte afirmação:

“Perguntada, se quando se amassava em sua caza lançava ou mandava lançar no fogo três pelouros de massa por cerimónia judaica? Disse, que tal não fez”. ( Processo de Beatriz Henriques,1583)

Segundo nos diz o Antigo Testamento, todos os dias em que se coza pão ázimo deverá fazer-se sempre uma oferta queimada. Além da interpretação desta frase do Levítico  , Barboff vai mais longe dizendo que este gesto também remete para a liturgia judaica, em que as oferendas eram feitas no templo de Jerusalém que, por intermédio de um sacerdote, as atirava à fogueira para arderem por completo. Também poderia ser interpretado como um sinal de aprovação de Deus. 


A PESACH E OS ALIMENTOS


    A etimologia o termo Pessach não é unanime, embora que o sentido mais comum atribuído seja a associação deste termo ao “passar por cima/por alto” sem esmagar que, do ponto de vista mais filosófico poderá ser entendida como defesa da comunidade ou a proteção divina.  A Pessach celebra o evento mais importante do povo judeu, a simbologia da saída deste povo do Egipto e da escravidão. Tão importante como o Rosh Hashanah que é a comemoração da criação do mundo festejada com tâmaras, romãs, grão-de-bico, maças com mel, simbolicamente representando a vontade deste povo em partilhar um ano doce, um ano novo muito positivo.

     Na Pessach tudo merece uma atenção especial. Para começar, retiram todo o fermento da casa, ou alimento fermentado.  Devem retirar das casas também todo e qualquer condimento como, por exemplo, o glutamato monossódico, mostardas, vinagres. Assim como massas, pães ou bebidas alcoólicas preparadas algum dos cinco cereais: aveia, centeio, cevada, espelta e trigo. Havia e há uma exceção, o matzah, um trigo duro feito de água e um trigo especial.   Acompanhavam deste pão, ovo cozido e pescoço de galinha assada e ervas amargas que simbolizam o sofrimento deste povo no Egipto.  São permitidas carnes, frutas, vegetais fresco e bebidas produzidas com frutas.  O cordeiro, era o animal escolhido para sacrificar nesta ocasião, conforme vemos no Êxodo, em que cada família escolhia para si um animal que tinha que ser macho e sem defeitos, que seria sacrificado ao anoitecer e o seu sangue era espalhado pelas travessas das portas das casas onde serviriam de alimento, após, o que dele sobrasse seria queimado no fogo.  Embora exista uma ligação próxima à ritualística sacrificial ancestral, percebemos que aqui não existe intermediação de um sacerdote, mas percebe-se a importância do sangue. Podemos assumir que o sacrifício é um pedido aos deuses, com vista à obtenção das suas boas graças, que lhes proporcionasse um ano próspero. O sangue que primitivamente era colocado nas tendas dos pastores era, segundo o imaginário destes, para afastar o mal. 

    A Pessach será acima de tudo a reconstituição de um legado e a sua objetiva preservação da memória desta comunidade. Os alimentos e o ato de cozinhar, são por isso, uma transformação da natureza em cultura, pelo homem, que podem ter a sua representação na etnia, na religião, etc.


A ALIMENTAÇÃO DOS PRISIONEIROS DA INQUISIÇÃO


    A Inquisição produzia internamente, em cozinhas para o efeito, a comida para os prisioneiros. Evitando assim ajuntamentos de pessoas, o que era muito comum nos espaços prisionais daquela época, por existir a necessidade dos familiares e amigos levarem mantimentos vários aos prisioneiros. Tal como evidenciado por Isabel Braga, as condições económicas e estatuto social diferenciavam o tratamento dos prisioneiros.  Os prisioneiros mais pobres ficavam limitados ao que lhes podiam servir, enquanto que os mais ricos pagavam a sua própria alimentação, de maior qualidade. Aqui transcrevo dois exemplos de pessoas de estatuto completamente distinto, onde é clara a diferenciação pela qualidade e quantidade dos alimentos colocados à disposição. 

Leonor, a escrava (1738)

    Este foi um processo de denúncia da escrava Leonor que servia na Quinta da Feyra, contra os seus proprietários António José e sua mulher Leonor Maria, a propósito dos jejuns judaicos que praticavam na prisão. Na cela, numa sexta-feira, havia salada com ovos, linguado frito e bacalhau frito com arroz, que estes encarcerados se encarregaram de esconder no armário. 

“porque nenhum delles o comeo e posto que disseram que estava o melhor arroz que ella nunca tinha feito, não era possivel que no tempo, em que tiraram um pouco de arroz para o prato, passado menos de um credo, lhe tornaram a trazer o prato sem arroz e então é que lho gabaram muito” . (Baião,1924)

    Não fora, no entanto, encontrado fundamento suficiente para os manter em cativeiro, até que, doze anos depois, entra em cena novamente, a escrava Leonor que mesmo sob ameaça “querendo-lhe meter um tição de lume na boca, e com efeito lhe chegou com ele á cara”  (Baião,1924) decide depôr em tribunal. Nessa altura, de acordo com o relato surgem mais evidências alimentares como, por exemplo, peixe frito e covilhetes de abóbora e arroz com manteiga. 

“(…) covilhete de abobora, o qual peixe frito que eram linguados, ela declarante já tinha visto em um almas rio ás escondidas dos ditos seus senhores, porém em jantar lhe não falaram, nem ela fez para si mais que uma posta de bacalhão e um pouco de arroz com manteiga que, suposto o dito Antonio José lhe pedia de comer para sua' mãe, tudo era afectado porque nenhum d'eles o comeu (…)  (Baião,1924)

    A alimentação descrita no testemunho da escrava, com alimentos que, embora relativamente comuns, na época assumem um papel simbólico na acusação. A atenção ao que se comia ou ao que se recusava, constituía por si elemento bastante de acusação. Refere-se igualmente a ocultação de alimentos, neste caso, num armário o que reforça a legitimidade da acusação. O uso dos escravos como mecanismo de acusação era uma prática recorrente na época. Como seriam parte da estrutura doméstica teriam acesso privilegiado aos hábitos e costumes dos seus senhores, tornando-se assim testemunhas muito valiosas para a inquisição. Convém não esquecer de igual forma que, a posição social destes individuos tornava-os susceptíveis à manipulção através da ameaça física ou verbal, conforme evidenciamos acima. 

D.José, testemunha do banqueiro Duarte Da Silva (1651)


    Enquanto inquiridas as testemunhas no processo que envolvia o abastado banqueiro Duarte Da Silva, acusado de práticas judaizantes, D. José, um dos envolvidos, estaria numa cela com outra testemunha e, conforme percebemos, indubitavelmente, o tratamento era substancialmente diferente, quando comparado com o caso anterior. 

“O réu embrulhou o frangão num guardanapo e pô-lo em cima de um alguidar vidrado em que estavam peras e melão. Às 11 horas vieram os guardas buscar a lotiça e o réu ajoelhou-se novamente no tanho e até ao meio dia não comeu nada. Só ás 7 horas é que comeu marmelada. Às 8 horas cearam: pão, ovos e azeitonas; o réu, pão, melão, queijo do Alemtejo, peras, 2 ovos e sua tigela de vinho. (…)O réu tambem comeu diasidrão  (…)” (Baião,1924) 

    Como se torna evidente, o seu estatuto privilegiado garante um conjunto de alimentos diversificados e requintados como o frango, o queijo do Alentejo, a marmelada, etc. Tal luxo contrasta claramente com o caso anterior, cuja alimentação era menos variada e com menos requinte. O facto de embrulhar o frangão, denuncia claramente a preocupação judaica com a pureza alimentar e a garantia que não estaria em contacto com outros alimentos considerados menos puros ou proibidos, de se juntarem como o caso do leite. 

    Percebemos também que o horário é igualmente referido, como que indiciando que o réu apenas se alimentava após o pôr-do-sol, e que até lá nada ingeria para não incumprir a lei judaica, que determina que os judeus apenas se podem alimentar após anoitecer. Conforme percebemos, o réu tem igualmente acesso a um fruto muito especifico e pouco comum neste território à data, como o dióspiro, que nesta altura era considerado exótico e, como tal, inacessível a qualquer classe. A utilização aqui, deste alimento, prova que de facto o tratamento era diferenciado e exclusivo dependendo do valor social que o réu representava.

O PAPEL DAS MULHERES NA PRESERVAÇÃO DAS TRADIÇÕES CULINÁRIAS


    A prática do criptojudaísmo, i.e., a prática de judaísmo em segredo, não era apenas um ato de sobrevivência cultural, mas também uma forma de resistência ao domínio religioso e social, que reforçou o papel das mulheres como agentes de poder dentro da família e da comunidade. 

    Foram as mulheres que de geração em geração, repetiram e formaram os vindouros nos ensinamentos das escrituras sagradas. Mesmo analfabetas eram conhecedoras da Lei, dos rituais, dos costumes e das orações. Chamavam-nas de “rezadeiras”. 

     As mulheres eram responsáveis não só pela organização e limpeza da casa, mas também pela preparação dos alimentos e por cuidar da saúde dos seus filhos. Eram também responsáveis pela segurança do lar e pelo ensino da religiosidade aos filhos. Foram estas mulheres, sem dúvida, os baluartes do judaísmo oculto, lutando com tenacidade num ambiente hostil, onde predominava a desconfiança, dividida entre a proteção dos filhos e o segredo da antiga fé. 


Tiago Lopes


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